(P)abu #3: eu canto, tu tocas, eles ouvem...

09/07/2016 0 Maçãs

A universidade é um mundo à parte. Por muitos clubes que a vossa secundária pudesse ter, nada se compara à diversidade de atividades que podemos encontrar numa instituição de ensino superior. Tunas, coros, orquestras, desportos, grupos de teatro... enfim, tudo o que possam imaginar.

Contudo, contrariamente ao que seria de esperar de atividades associadas à universidade, nem todas são abertas à comunidade académica em geral. Refiro-me, por exemplo, e no caso específico da UBI, às tunas - reservadas aos estudantes que se encontrem na Praxe.

[sem querer desprezar as restantes atividades, vou cingir-me ao âmbito musical por ser aquele de maior interesse para mim e também aquele sobre o qual mais me informei]

Mais uma vez, um assunto polémico. Praxe, espírito académico, tuna... estará isto tudo assim tão relacionado e enraizado na nossa cultura ao ponto de não conseguirmos distinguir uns conceitos dos outros?

Aparentemente, o ingresso numa tuna implica passar por dois momentos praxísticos: o da Praxe e o de uma praxe interna, chamemos-lhe assim, inerente e específica a cada um destes agrupamentos musicais. Na "propaganda", esta última é apresentada como sendo de cariz diferente da primeira; como não a vivenciei, não posso tecer comentários. Infelizmente, e a ver pela experiência que tive com a Praxe, quer-me parecer que as coisas também não iam correr muito bem para mim nessa praxe interna...

Confesso que fiquei um pouco (ok, pouco being an understatement...) desanimada com esta situação. Vou repetir para o caso de não terem ficado bem esclarecidos: apesar das tunas se dirigirem "a todos os alunos/a todos os alunos dos cursos x", é necessário que esses alunos tenham realizado a Praxe. Não sei se os dirigentes de tais agrupamentos consideram isto um dado adquirido, mas é algo que nunca é dito e que, pelo que sondei de colegas de outras cidades, não se verifica em todo o lado. Então... a Praxe só "comanda" as tunas nalguns sítios? Ora bolas, e eu a pensar que isto vinha tudo da tão famosa tradição académica!

Já agora, se quiserem mais justificações, na UBI vem a tão famosa desculpa do traje. Se aqueles que não realizam a Praxe não podem trajar (o traje académico da UBI, bem entendido), como é que esperam atuar com a tuna? Porque trajar, trajar, todos podem trajar o "nacional", mas misturar a sainha curta num grupo de meninas com a sainha comprida, 'tá quieto maluco (aproveito para acrescentar que há quem tenha um traje "adaptado", que é como quem diz: andou noutro curso/universidade, comprou lá o traje e fez umas modificaçõezecas quando entrou para a UBI; como não dá para acrescentar tecido, a saia ficou curta na mesma...). E quem diz sainha diz chapéuzinho, cuja ausência deve fazer uma grande diferença num grupo de meninos todos aos saltinhos e a lançar fogo pelas ventas. Juro! Pronto, não é pelas ventas... mas lá que lançam fogo, lançam!

De longe, a maior desilusão que apanhei este ano. Apesar de não ter gostado da Praxe (pelos horários, pelo "conteúdo" da maioria das atividades, por algumas das "ideias" que por ali passavam...), ainda considerei (mas considerei MESMO) passar pela dita cuja praxe interna. Julgava eu que, por muito má que pudesse ser (e por má entenda-se: que eu detestasse aquilo e tivesse zero motivação para continuar a ceder a tanta palhaçada), valeria a pena por me poder juntar a um grupo de estudantes como eu, com um grande gosto pela música e pelo bom ambiente, onde teria a oportunidade de partilhar mais e mais e de passar por experiências diferentes e únicas na minha vida académica, pois se um curso de seis anos parece longo, uma vida de estudante de seis anos parece curta...

E escrevo isto tudo com alguma mágoa, não dirigida a alguém em particular, mas sim por ainda não ter ultrapassado completamente a realidade de tal injustiça segregadora (desculpem, mas não encontro uma melhor palavra, embora esta seja particularmente violenta). Independentemente de tudo, de eu gostar ou de não gostar, de me dar bem ou de me dar mal, de me integrar ou de não me integrar, gostava de ter tido a possibilidade de experimentar. Gostava que todos os estudantes tivessem esta possibilidade, pois, da mesma forma que eu me senti excluída, com certeza que outros também o sentiram e, para mim, não faz sentido existirem atividades com tamanha importância estudantil (e que se identificam como sendo da universidade x) que excluam parte da sua comunidade.

Até pareço "uma triste" a escrever isto, mas... a verdade é que coloquei a tuna num pedestal (a tuna, por me estar a referir àquela que mais me cativa) e, ainda hoje, me custa um pouco falar do assunto. Todos os dias vejo as minhas colegas com as suas t-shirts de caloiras da tuna e calo-me. Ouço-as a ensaiar e calo-me. Mas o meu dia perde mais um bocadinho do seu encanto quando me apercebo de que estou a ver tudo do lado de fora. Se nos espetáculos todo o corpo estudantil feminino anseia pela atuação da tuna masculina (pelas razões mais óbvias, leia-se, sexistas - ou então é mesmo porque até têm jeitinho para a coisa e claro que a minha parte preferida é quando cantam a minha música!), eu aguardo ansiosamente pela tuna feminina, adivinho as músicas todas pela breve introdução ou pela primeira nota que se fizer ouvir. Oh pá, já não consigo ouvir a progressão ré-lá-mi-sol sem me lembrar do cavaquinho e do violino e do contrabaixo e da guitarra e das vozes todas e isto é um bocadinho doentio e só me faz sentir nostálgica.

Apesar de tudo, mesmo sabendo que a condição de entrada é aquela que eu não me sinto capaz de dar (fazer a Praxe no início deste 2º ano, por exemplo... interrogo-me: com que propósito? Integrada já estou, até que ponto é que a tuna vale a pena? E depois ouço aqui no topo da cabeça "vale a pena, vale" e fico assim, sem saber o que fazer, a sonhar com o que não vai acontecer), continuo a ouvir atentamente, a ficar acordada até às tantas para poder ver as atuações em direto quando vão a festivais... enfim, já me sinto suficientemente embaraçada por estar a admitir estas coisas.

Para compensar, e já agora serve de incentivo para aqueles que estiverem numa posição semelhante, há alternativas, sim. Eu estava à procura de um grupo que me permitisse explorar algo de cariz instrumental. Cantar é muito giro e tal, mas o meu coraçãozinho já estava há muito preenchido por um projeto lindo, lindo que espero que já todos conheçam: as Ninfas do Lis. Na cidade neve, bem lá no seu interiorzinho, encontrei a minha alternativa (como quem diz: se eu encontrei na Covilhã, vocês também encontram noutras cidades). O projeto Coro e Orquestra da UBI surgiu há uns meses, conta com meia dúzia de gatos pingados e ainda tem muuuuuito trabalho pela frente. Mas o gosto em cantar ou tocar está lá, o potencial está lá, a companhia está lá. O resto vem do contributo de cada um! Gosto de sentir que dou o máximo nos projetos em que me envolvo (já me sinto semi-culpada por estar tão afastada dos ensaios das Ninfas nos últimos tempos, mas estando na Covilhã torna-se impossível ter uma presença tão regular no coro) e não sou de desistir só porque sim. Se o pouco que sei mais o pouco tempo que tenho servirem para ajudar... então isso já é suficiente para mim. Afinal, todos gostamos de nos sentirmos úteis. A qualidade advém do nosso esforço e da junção do conjunto!

E é isto. A verdade é que a tuna não precisa do meu contributo (nem de ninguém que não tenha feito Praxe, aparentemente) e, mérito lhes seja concedido, se têm desenrascado muito bem e conquistado membros que, não tenho dúvidas nenhumas, só têm melhorado aquele que já se apresenta como sendo um excelente grupo. Mas, já sabem, se alguém se quiser juntar ao Coro e Orquestra, serão todos bem vindos - todos, sem distinções praxísticas.

(P)abu:
#1: uma semana e um dia
#2: integrar, trajar, segregar
#3: eu canto, tu tocas, eles ouvem... «

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