(P)abu #2: integrar, trajar, segregar

06/07/2016 0 Maçãs
(p)abu, como quem diz que a Praxe é um assunto tabu...
A "integração" não é uma escolha pessoal. Eu não escolho integrar-me, escolho fazer um esforço para me integrar, o que é algo completamente distinto. Depois, é algo que não depende apenas de nós; somos humanos, dependemos todos uns dos outros e por alguma razão gostamos de viver em sociedade. Daí que, independentemente do que muitos gostem de dizer, é tão fácil integrarmo-nos quanto, vá se lá saber porquê, não nos integrarmos.

Pronto, agora é que estou feita ao bife. Não me dei bem com a Praxe e as aulas propriamente ditas ainda nem começaram. Vou sentar-me de forma aleatória nas tutorias (e logo no meu curso, em que até as salas já têm as mesas dispostas para nos sentarmos em grupo...) e vai ser um sarilho de todo o tamanho até conhecer alguém tão desorientado quanto eu. Como é que é suposto integrar-me?

Colocando a questão de outra forma: não fazendo Praxe, há alternativas? No caso específico da minha universidade, a resposta é muito simples: não.

Talvez a "culpa" tenha mesmo sido da organização própria do meu curso, mas o que é certo é que não foram precisos muitos dias para eu já saber que pessoas seguir e onde me sentar no refeitório. Agora falando disto de uma maneira que não me faça parecer uma stalker, o mais difícil é iniciar a conversa; o resto, vem naturalmente. De onde és, já andaste noutro curso, como correram os exames do secundário, conseguiste quarto nas residências... os tópicos abundam e oportunidades não hão de faltar. Depois de conhecer alguns colegas, percebi que havia muitos mais que ainda se encostavam às paredes, sozinhos, quase como se receassem meter conversa com alguém - e, mesmo quando nós já temos um "grupinho", não nos custa nada ser solidários e dirigirmo-nos a essa pessoa. De qualquer das formas, quando ainda quase ninguém nos conhece... o que é que temos a perder? Estamos todos para o mesmo! Todos deslocados (ok, isto não é bem assim em todas as cidades, mas ser-se da "terra" também pode ser bastante vantajoso!), todos à descoberta dos próximos x anos...

Tive sorte. Acho eu, que duvido que tenha conhecido estas pessoas incríveis à custa das minhas excelentes capacidades comunicativas... não existentes, bem entendido. Estou para aqui a escrevinhar sobre o fazermos um esforço por nos integrarmos quando, muito provavelmente, era a última pessoa a meter conversa com um perfeito desconhecido. Se bem que as coisas têm melhorado, 'tá?

Mas, ainda assim, se conhecer os colegas é algo que se vai conseguindo, nem que seja em ambiente letivo, conhecer uma cidade, uma faculdade, um curso... é algo muito mais difícil. Sem a ajuda da Praxe, que guia bastante os caloiros nos seus primeiros meses na universidade, torna-se mais complicado saber aquilo que é fruto da experiência de pessoas que já estiveram na nossa posição: qual o melhor caminho a tomar para ir para y sítio, ou se vale a pena ir à festa w, ou se é mesmo preciso ler a bibliografia toda de arte antes das tutorias do professor z. Então eu ainda nem sei os nomes dos colegas do meu ano e esperam que eu já saiba ir ter à Fábrica do Moço? Aiiiii, tudo estragado!

Para alguém que assistiu a quase tudo do lado de fora, a Praxe, acima de tudo, dá-nos a conhecer o nosso curso e os nossos colegas mais avançados. O Núcleo de Estudantes ou a Associação Académica conseguem ser uma boa ajuda à integração com algumas das suas atividades, mas ficam-se por aí. No meu caso, acabei por não precisar da Praxe para me integrar, mas ainda hoje agradeço àquela semana e um dia por me ter permitido aprender os nomes de mais de uma centena dos meus colegas de ano - nada mau para quem só conhecia 1 pessoa no meio daqueles caloiros todos!

Contudo, a influência da Praxe vai muito para além desses dois meses e meio de atividades de integração. Ora diz o Código de Praxe o seguinte:
"A Praxe é um legado ancestral, que muito embora, toda e qualquer atualização e(ou) mudança jamais desproverá da essência vital e primordial que foi a sua origem, exortamos pois a que se respeite, ainda que, possa haver por parte de alguém reservas de algum carácter em relação à mesma (podes não ser pela praxe mas respeita a praxe), sendo aliás este o principio básico do estado democrático de direito." [link]
"respeita a praxe", pedem-nos eles. Assim o fiz, assim o faço e, no entanto, eu sinto-me desrespeitada por este organismo em relação a alguns aspetos: aquilo de que ninguém fala e que é vedado (indevidamente ou não, cabe a cada um que pense para si próprio com a sua cabecinha ou, em último caso, escreva sobre estas coisas no seu blogaos que não realizam Praxe.
"Artigo 116º - Só é permitido o uso do Traje Académico a todos os estudantes, que estejam na PRAXE, isto é, que tenham realizado o estágio de caloiro que consiste no Batismo e Latada." [link]
Na UBI, quem não faz Praxe vê-se impedido de trajar. Ups, desculpem, já vos estou a informar mal! Como não quero provocar mal entendidos, vou reformular: quem não faz Praxe, não pode usar o Traje Académico da UBI. Ahhhh, então posso trajar o do Porto, de Coimbra, de Lisboa, do Harry Potter... podes, claro que podes! Podes vestir muito bem o que entenderes, desde que não seja o nosso muy nobre Traje Académico.

Desculpem lá algum excesso de ironia nas minhas palavras, mas isto, para mim, não faz sentido nenhum. Este é um dos pontos mais defendidos por aqueles que integram a Praxe e, na minha opinião, um dos mais falaciosos, tendenciosos e segregadores da comunidade estudantil. Ora então, sim senhores, sou estudante universitária MAS não posso trajar aquele que é o Traje Académico da minha universidade. Claro, faz todo o sentido!

Molhaste o corpinho no lago durante o Batismo? Levaste com os ovinhos e com a aguinha a saber a mijo na tromba durante a Latada? Não, pois não? Então, não tens esse direito! Nós sofremos para podermos trajar! E não, estas não são palavras exatas. Mas basta uma pequena "discussãozinha" com alguém da Praxe para este tema vir à tona de água e saírem da sua boca barbaridades palavrinhas fofinhas deste género.

Eu tento posicionar-me de forma imparcial no meio disto tudo. Não me considero anti-Praxe, as minhas poupanças não me permitem andar a esbanjar dinheiro em trajes para usar em duas ocasiões ao longo de todo o ano (as duas Serenatas) e, se alguém se quiser revoltar acerca deste assunto, muito provavelmente não serei eu. Contudo, basta-me refletir por alguns segundos para compreender como esta é uma imposição praxística sem qualquer fundamento prático:

  1. o Traje Académico é do estudante universitário, já basta que haja quem não tenha posses económicas para o adquirir, alguém que me explique a que propósito é que vamos segregar ainda mais os estudantes em "praxou" e "não praxou" (já agora, trajar é diferente de aplicar a Praxe e notar-se-ia sempre a diferença por não apresentar um crachá com o cargo hierárquico);

  2. não há um "traje nacional", há diversas diferenças de instituição para instituição e não me parece de todo lógico que um estudante da Covilhã traje à moda de Coimbra (se calhar morria de frio no inverno, mas pelo menos sempre tinha uma saia mais gira);

  3. comprar o traje habitual da instituição sempre faz desenvolver a região, eu cá acho que as ovelhinhas da Covilhã se iam sentir ofendidas se se começasse a preferir o algodãozinho estrangeiro à sua lãzinha quentinha.

Tirem daqui as vossas próprias conclusões. De todas as diferenças em relação a quem pertence à Praxe, esta parece-me, claramente, a mais injusta. Não honra a universidade, a cidade, o comércio local ou os estudantes. Que nos proíbam de participar na tuna (já lá vamos...), tudo bem. Mas impedirem-nos de ter uma foto de perfil no facebook em que parece que vamos roubar alguém, todos de preto e com aquele capuz enfiado? Não nos façam isso... 

(P)abu:
#1: uma semana e um dia
#2: integrar, trajar, segregar «
#3: eu canto, tu tocas, eles ouvem...

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