(P)abu #1: uma semana e um dia

05/07/2016 0 Maçãs
(p)abu, como quem diz que a Praxe é um assunto tabu...
Dos dois meses e meio que dura a Praxe na Covilhã, eu compareci a uma semana e um dia. Um período que, diga-se de passagem, teve os seus bons momentos. Também chorei a rir com as palhaçadas dos meus colegas, também contive as emoções no momento em que algum praxante me dirigiu a palavra ou era suposto estar caladinha no meu canto sem me rir do que se passava à minha volta.

Não me deu para choros. O pior inimigo que enfrentei numa semana e um dia foi... o frio. Ou, pelo menos, assim o achei naquela altura. Estar deitada no chão, às 3h da manhã, com 7 graus Celsius de temperatura, nem com um casaco de lã e um impermeável por cima a coisa podia correr bem. Pior do que isso, só quando achei que me iam colocar banha de porco no cabelo; eu escapei - alguns dos meus colegas, não. Se isso diminuiu o entusiasmo deles no dia seguinte? Claro que não!
- Fomos apanhados por uma melícia e foi brutal! Estou de direta, vou dormir na tutoria de biocel! (ok, esta não é uma citação exata, mas o conteúdo não difere muito da realidade)
Então... porque é que saíste?

Para vocês, vai ser a desculpa mais esfarrapada de sempre. Digo-o, porque assim o foi para os meus praxantes. Contudo, não deixa de ser verdadeira: o cansaço. Não me venham com cantigas de que um estudante universitário tem de se habituar a deitar-se às tantas da matina para se levantar um par de horas depois - se forem "malta da pesada", até me vão dizer que nem é preciso dormir! Eu sei, já conheço essa lengalenga toda. Aquilo que eu quero dizer... é que não é bem assim. Muito menos passa a ser assim quando nos tornamos num estudante universitário.

Oficialmente, a transição dá-se logo que nos matriculamos numa instituição de ensino superior. Na realidade, a coisa é muito mais subjetiva do que assinar uns papelinhos e dar um dinheirito de entrada. Há universitários que levam vida de "secundários", há "secundários" que já levam vida de universitários, há vidas para todos os gostos (ou não sejamos 349.658 pessoas diferentes que têm em comum estarem matriculadas no ensino superior).

Para mim, chegar a uma cidade nova, habituar-me a uma realidade diferente, longe dos pais e amigos, mudar completamente de hábitos de sono e descanso... olhem, não deu. Se podia arranjar uma desculpa melhor? Provavelmente sim (há quem não tenha pachorra para se justificar e se identifique logo como anti-Praxe), mas não estaria a ser sincera, nem comigo própria, nem com os outros - os meus colegas caloiros, os meus colegas de curso e praxantes, etc e tal. Não fui daquelas pessoas que simplesmente deixou de comparecer à Praxe, que essas há muitas e depois lembram-se de aparecer nos últimos dias antes do Batismo para ver se ainda conseguem uma cunhazita (resta saber quantas terão conseguido...). Falei com o Chefe de Latada, justifiquei-me, entreguei todo o material que até então tinha angariado (desde cabos de vassoura a dinheiro de rifas, por exemplo), ouvi todos os sermões e tentativas de me dissuadir da minha decisão... e estas últimas aceitei-as de bom grado. De forma alguma senti hostilidade no tratamento que me foi dado, até me identifiquei com alguns dos argumentos apresentados favoráveis à minha permanência (e sobre os quais vou escrever posteriormente).

Todavia, não havia como negar. Eu não aguentava mais. Uma semana e um dia foram o bastante para eu me sentir de rastos, mal humorada, como se já não suportasse ter alguém à minha frente e só me apetecesse cair para o lado e nunca mais acordar. Parece dramático e surreal escrever algo assim depois de tantos meses, mas só no momento é que a pessoa tem perfeita noção do que está a sentir e, ainda que agora só me apeteça desvalorizar o assunto, foi assim que aconteceu. É como aquelas dores de barriga: 1) aaaaaaiiiii dói tanto não aguento mais tirem-me daqui só me quero enrolar e formar uma bolinha sem ninguém me ver pensando bem prefiro é tomar um ben-u-ron e despachar o assunto, 2) ah aquele mal estar de ontem já passou já não foi nada de especial com o comprimido foi um instantinho da próxima tomo é mais cedo e nem sinto nada.

Pois é, saí da Praxe porque estava cansada. Que aldrabona, tremia toda quando nos via e agora vem para a internet escrever estas tangas. Não, ninguém (ainda, ehehehe) me disse isto, mas eu gosto de imaginar o que as outras pessoas estão a pensar. Sei perfeitamente que é isso que pensam os meus compinchas caloiros - aquela saiu porque teve medo, não consegue estar acordada até às 4h e ainda se diz estudante de Medicina. Não lhes levo a mal, compreendo a sua posição. Se eles conseguiram aguentar, é de estranhar que eu não tenha conseguido, claro.

E aqui é que a porca torce o rabo. Comecei por dizer que passei por alguns "bons momentos" nesta minha curta experiência do que é ser-se praxada. Verdade, não há como negar. Daí até ter gostado de tudo, vai uma grande distância. Algo que, aparentemente, também é perfeitamente normal. Relembro uma conversa muito frequente logo nas primeiras noites com os praxantes (oh, dito assim até parece algo romântico):
- Caloiro, está a gostar da Praxe?
- Sim...
- Sim, não! Não é para gostar!
Não sou indiferente à Praxe. Tenho uma opinião, sujeita a aperfeiçoamentos e alterações, que me abstenho de manifestar em ambientes mais ou menos públicos de forma a não ferir suscetibilidades. Também não me considero propriamente a maior especialista no assunto e considero que, se é para dizer asneiras, mais vale estar calada. Infelizmente, tendo em conta o meu feitiozinho, às vezes escapam-me certos ditos que, mal interpretados, dariam pano para mangas a discussões sem fim. Não é essa, portanto, a minha intenção.

Com isto tudo pretendo deixar algo bem claro: independentemente daquilo que eu possa achar em relação às atividades praticadas em contexto praxístico ou à globalidade do fenómeno a que chamamos Praxe, as razões que me levaram a sair foram de caráter pessoal e em nada se relacionaram com maus tratos, abusos ou qualquer tipo de violência. Digo "caráter pessoal" porque, lá está, mais ninguém tem culpa se eu não me dou bem com o ritmo da Praxe (atividades maioritariamente noturnas e com as quais não me identifiquei) ou me sinto pouco motivada e tudo isso junto levou... à minha decisão final.

Pronto, não fiz Praxe. E agora?

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