Também era para escrever sobre o Zoo, mas fiquei-me pelo Museu da Eletricidade

30/04/2014 1 Maçã

*este post começou a ser escrito no dia 24 de março*

O dia começou da melhor maneira para mim: acordei às 6 da manhã, tomei um duche para conseguir abrir os olhos decentemente, comi o habitual pequeno-almoço, apanhei o autocarro lá para as 7h10 e às 7h15 já estava no ponto de encontro para a visita de estudo. Claro que a maioria das pessoas só começou a aparecer às 7h35, por isso ainda estive algum tempo à espera (o que vale é que não estava muito frio).

Finalmente, lá partimos às 7h58, no autocarro número 2, juntamente com outra turma, o 11ºF. Nós aproveitámo-nos de termos sido os primeiros a entrar e ocupámos logo os lugares do fundo. Eu, como já tem sido habitual, fiquei no lugar do meio (daqueles 5 lugares que há no fundo dos autocarros - da esquerda para a direita de quem entra no autocarro, PF, PD, eu!, MG e NN). Ahhhhh, sim, voltámos às iniciais dos nomes; dá sempre confusão, mas tem o dobro da piada.

Chegámos a Lisboa às 9h47, mesmo a tempo para iniciarmos a nossa visita guiada pelo Museu da Eletricidade às 10h. Eu já lá tinha ido, também numa visita de estudo, talvez quando andava no 9º ano, mas não deixou de ser uma boa experiência, até porque a companhia muda muito a noção que temos de algumas experiências.

AVISO: spoilers para quem nunca fez esta visita-guiada. ;)

Sendo assim, o nosso guia começou por referir que este museu se trata de uma antiga central termoelétrica, que utilizava carvão da Inglaterra como fonte de energia. Isto tudo porque o carvão da Inglaterra e o nosso carvão têm diferentes valores caloríficos, ou seja, o carvão da Inglaterra rendia mais e, por isso, esta central recebia este carvão pela via marítima (daí a localização estratégica da central junto ao rio) e organizava os diferentes carvões em montes naquela que ficou conhecida como a Praça do Carvão, para que não existissem misturas. Assim, ainda hoje, mesmo de fora da central, é possível observar-se o triturador, a nora elevatória, o crivo, o tapete de distribuição, os tubos de queda e o castelo de água.

Ora bem, a central, quando surgiu durante a 1ª Guerra Mundial, era constituída por um edifício, que ficou conhecido como o Edifício da Baixa Pressão, e que tinha 11 caldeiras e que hoje em dia é utilizado para exposições. Mais tarde, durante a 2ª Guerra Mundial, a central sentiu a necessidade de se expandir, pelo que surgiu o Edifício da Alta Pressão, com 4 caldeiras.

Outra razão para a localização da central vem da necessidade da utilização de água. A água do rio era, então, encaminhada para a Sala das Águas para ser purificada (continuem a ler que já vão perceber melhor).

Se bem se recordam, já aqui referi o tapete de distribuição e os tubos de queda; pois é, o que sucedia é que o carvão era colocado no tapete de distribuição, passava nos tubos de queda e ia dar ao tapete de grelhas, este já dentro da caldeira (onde hoje em dia é possível passar), onde vários cinzeiros iam recolhendo o carvão meio queimado. No último cinzeiro era recolhida a cinza, que era posteriormente vendida.

Passando pela Sala do Gerador, podemos encontrar a turbina e o alternador, a primeira com uma frequência de 3000 rpm ou 50 Hz e movida pela força do vapor sobreaquecido, e o segundo sendo constituído por fio de cobre enrolado, formando uma bobina, com um íman no centro. Tudo isto só é possível devido ao movimento rotacional muito lento do tapete, bem como a rotação dos tubos de queda na horizontal para melhor espalharem o carvão.

A cada caldeira correspondia uma mesa de comando, onde se encontrava um cabo de fogueiro que tinha de saber ler e escrever e que comunicava com o vice-cabo de fogueiro lá em cima através de símbolos e gestos, uma vez que o ambiente na central era extremamente barulhento e que se encontravam mais de 100 pessoas só no Edifício da Alta Pressão.

Voltando, então, à questão da água do rio; esta fonte fria servia para calcular o rendimento da central, pois arrefecia o vapor de água e ocorria a condensação da água já pura. Os tubos onde circulava a água eram inclinados para facilitar essa mesma ascensão do vapor, na diagonal. Estes tubos também se encontravam alternados para que todos recebessem o mesmo calor.

Como estava então a dizer, o fogueiro aumentava a eficiência da fábrica, pois garantia que não havia carvão não totalmente aproveitado. Tendo em conta que a caldeira se encontrava a cerca de 1200ºC (mais quente do que um vulcão), o fogueiro usava roupas de sarapilheira (aquele pano dos sacos de batatas) que, quando molhado em água, continuava molhado durante muito tempo e o deixava mais fresquinho no meio daquele calor todo. Como o chão era de metal (que é um bom condutor térmico), também os sapatos estavam cobertos com sarapilheira, além de que, provavelmente, usavam panos molhados com água nas mãos para se protegerem. Com o aparecimento dos calos nas mãos, a utilização destes panos passava a ser desnecessária. Utilizavam também um instrumento comprido para se poderem proteger dos fumos e dos vapores.

As máquinas vinham da Alemanha (marca AEG) e de Inglaterra, logo, era necessário que existissem pessoas com formação para saberem consertar as máquinas caso houvesse algum problema. Desta forma, na central existiam oficinas de carpintaria, relojoeiros e outros funcionários treinados para lidar com determinadas situações.

Convém lembrar que o carvão aqui utilizado era o carvão mineral, e não o carvão vegetal, pois o primeiro era "duro que nem uma pedra", tornava-se num material viscoso (tipo lava) quando saía do último cinzeiro e, misturado com água fria, levava à sua solidificação e ainda dava para aproveitar no triturador. Já agora, a direção do tapete de queda era a mesma da evolução do carvão semiqueimado para o carvão completamente queimado.

Infelizmente, dá para perceber que os trabalhadores desta central tinham terríveis condições de trabalho, de tal forma que apanhavam grandes choques térmicos e só trabalhavam 3 dias seguidos até se demitirem devido a doenças; voltavam, mais tarde, para continuar com o dito cujo ciclo dos 3 dias de trabalho. Eram pessoas sem muitos estudos, cuja esperança média de vida rondava, apenas, os 40 anos de idade, enquanto que nessa altura, para o resto da população portuguesa, esta já chegava aos 60 anos de idade. Só para terem uma ideia, a esta sala chamavam Sala dos Infernos - dá para perceber porquê...

Em contraste com esta parte da fábrica, a Sala das Águas (uma zona muito mais limpa e fresca), que até se encontrava separada da outra sala por uma barreira física, tinha pessoas qualificadas que vestiam batas brancas lá a trabalhar. Existiam tubos de várias cores diferentes onde circulavam as águas, que, desta forma, se conseguiam distinguir melhor (ex. o tubo de cor "x" já se sabia que continha a "água pura").

Terminava aqui a primeira parte da nossa visita ao Museu da Eletricidade...

- ... as meninas primeiro! - a simpática AR a deixar o NN subir primeiro as escadas. :)

... sendo que, logo de seguida e após passarmos pelo gerador, nos dirigimos para um pequeno Laboratório onde pudemos assistir a uma série de demonstrações acerca da existência e da propagação da eletricidade, ou, melhor dizendo, a uma série de recriações de famosas experiências de cientistas como Galvani, Volta, Ørsted, Faraday, entre outros. Saindo do Laboratório, tivemos também a oportunidade de explorar algum material interativo que se encontrava disponível para uma aprendizagem mais... autodidata, por assim dizer, sem o acompanhamento do nosso guia.*

*e... pronto, após um mês de volta dos meus apontamentos, a preguiça é tãoooo grande que não me apetece estar a passar isto tudo a limpo. Ficam a saber que passámos a tarde no Jardim Zoológico, que nos divertimos imenso (até porque a nossa guia era, vejam só, de Leiria!) e que foi um dia muito bem passado. De qualquer forma, tenho aqui as minhas folhinhas para o comprovar. ;)