De bicicleta para a escola: sim ou não?

08/09/2012 4 Maçãs

Aqui há uns dias, li um artigo no Público no qual era exposta uma proposta duma investigadora da Universidade do Minho que defendia a oferta de uma bicicleta a cada aluno em vez do habitual passe escolar. Segundo a mesma senhora, de seu nome Beatriz Pereira, esta iniciativa (aparentemente apenas aplicável aos alunos do 1º ao 9º anos de escolaridade - e eu? Não tenho direito?) permitiria às autarquias poupar dinheiro e levar os alunos a praticarem mais exercício físico.

Assim que li os primeiros parágrafos da notícia, deu-me vontade de rir. Por um momento imaginei-me a mim própria a ir de bicicleta para a escola, carregada com a mochila às costas, com o saco da Educação Física e com o violino, a descer e a subir pelo meio da cidade de Leiria, com o seu habitual trânsito e aquela chuva miudinha bastante comum durante o inverno. E considerei, imediatamente, que esta era uma proposta sem critério nem nexo nenhum.

Ora qual não foi o meu espanto quando, ao ler os comentários do dito cujo artigo, descobri que imensas pessoas tinham uma opinião contrária à minha. Que o mau tempo não era desculpa pois noutros países desenvolvidos essa situação não era impedimento, que nas cidades do litoral não existiria qualquer problema em termos de tráfego e de subidas e descidas, e por aí fora...

Eu percebo. A sério que percebo. As pessoas querem evoluir, querem acreditar que é possível fazer uma mudança destas dum momento para o outro, e que todas as criancinhas pelo país fora vão passar a andar de bicicleta, a terem hábitos mais saudáveis e a não poluir (tanto) o nosso planeta.

Iludam-se, se quiserem. Eu cá não acredito nessas coisas. Afinal, se nem a implantação de TRANSPORTES PÚBLICOS é feita decentemente nas CIDADES portuguesas, como é que querem mudar de andar de carro privado para andar de bicicleta?!

Além disso, que história é essa de não existirem grandes declives nas nossas cidades? À exceção de Aveiro, que aparentemente é a única cidade que tem realmente condições para andar de bicicleta, acham que é fácil cá em Leiria, por exemplo? Dou-vos o exemplo mais prático de todos: eu não consigo ir até à minha escola de bicicleta. Muito honestamente, não consigo. As nossas cidades foram construídas à volta de castelos, e esperam que sejam planas?! Sim, é verdade, há bicicletas elétricas. E, hummmm... as autarquias vão mesmo andar a oferecer bicicletas elétricas a todos os alunos...?

Oh pá, vão dar uma volta! Isso e a parte do carrego. Afinal, que mal tem andar com uma mochila às costas? E que diferença faz se tivermos de levar um saco na mão nos dias da Educação Física? E se, por qualquer outra razão, tivermos de levar ainda outro tipo de carrego (tal como o meu violino)?

Podem dizer que tudo isto são desculpas. Vá, digam! Digam que raramente chove, digam que os condutores portugueses são muito responsáveis no que toca aos ciclistas e que as nossas estradas estão preparadas para uma medida deste género. Digam que apenas nas zonas rurais é que é justificável o uso dos autocarros, já que com tantas escolas encerradas os alunos têm de viajar imensos quilómetros diariamente só para terem uma educação decente.

Digam que os acidentes acontecem quer as pessoas andem a pé, quer andem de bicicleta ou quer andem de autocarro. Eu até a pé tenho medo de andar, porque os passeios muitas vezes não existem ou são tão estreitos que basta levarmos um guarda-chuva para termos de andar na estrada para este não bater nas paredes.

Digam tudo o que quiserem. Eu só digo isto: no dia em que os condutores estejam educados de maneira a permitirem que os ciclistas andem nas estradas, no dia em que as escolas tenham um sítio SEGURO para arrumar as bicicletas (ahahaha, quem é que quero enganar? As escolas muitas vezes nem têm aqueles ferrinhos para prender as bicicletas, quanto mais um sítio seguro!), no dia em que os ciclistas não levem com apitadelas de cada vez que um carro queira andar nas velocidades e não tenha espaço suficiente na estrada, NESSE dia, eu poderei considerar a possibilidade de ir de bicicleta em vez de ir de autocarro para a escola, mesmo com todos os problemas de carregos e de condições atmosféricas adversas.

Até lá... ganhem juízo!

P.S. Este é um post bastante pessoal, como devem ter reparado. Não pretendo de maneira nenhuma ofender ninguém, apenas demonstrar o quão ridícula esta proposta é (na minha opinião, volto a vincar).

Outras leituras úteis:

4 Maçãs

  1. Não acho má ideia, mas também não é boa, aqui em Oslo ( Noruega ) o que se usa e SÓ bicicletas, existem postos por toda a cidade para por as bicicletas, basta comprar o cartão que andas sempre que quiseres, desde que as ponhas no devido lugar, aqui nem se fala em condições atmosféricas, chuva, solinho, neve, nevoeiro, e mesmo assim andam de bicicleta, essa de ser até aos alunos do 9º ano acho bem, a partir dai já são mais rebeldes e vendem as bicicletas só mesmo para ganhar dinheiro para as coisas deles, mas agora do 1º ciclo ? eles têm de ir obrigatoriamente de carro ! gostei muito do post :)

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    1. Ena, aí em Oslo as coisas são mesmo diferentes! Eu adoro andar de bicicleta, acho que não me importava nada de morar aí na Noruega. :D
      Fico contente por teres gostado do post e obrigada por tudo!
      Beijinhos, Madalena

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  2. Falas de maneira muito errada ... As câmara são obrigadas a pagar milhares de passes escolares todos anos, e uma bicicleta? Sairia muito mais barato, muito menos poluente e muito mais saudável. Queixas-te da chuva porquê? E as crianças, pobres coitadas, nos países pouco desenvolvidos que andam no meio de enormes cheias, descalças e sem roupas decentes? Estás demasiado habituada a muito luxo ... tu e toda a sociedade. Sim, luxo! Andar de qualquer meio de transporte é um luxo!
    Eu sou de Leiria, e tenho que a atravessar de uma ponta à outra para ir para a escola .. quer faça chuva, sol, vento ... E sabes que mais? Ainda bem. Porque eu já venho de longe, e sou obrigada a usar o autocarro para chegar a Leiria. Mas se em Leiria ainda fosse usar o mobilis ... bem, era ser ingrata ... Afinal de contas, nós, povo desenvolvido, temos milhares de luxos que desvalorizamos. :)

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    1. Olá!
      Em primeiro lugar, obrigada por expores aqui a tua opinião, é sempre bom ler outros pontos de vista e confrontá-los com o nosso, não é verdade?
      Seja como for, tenho de discordar contigo. Não consegui perceber bem se chegaste a ler o post todo com atenção, uma vez que só referiste um dos pontos que apresentei como oposição a esta ideia das bicicletas (a chuva e o mau tempo).
      Achei curiosa a forma como interpretaste o meu texto; o facto de considerares que andar de meio de transporte é um luxo deixou-me surpreendida, até. Tens toda a razão no que toca aos países subdesenvolvidos, mas... será que Portugal é um desses países? Aliás, até parece que devíamos todos agora regredir e passar a andar a pé para todo o lado, ou de carroça, como se fazia na Idade Média!
      A meu ver, devemos tentar evoluir, e evoluir no sentido de todos nós (sim, ricos e pobres, já que insistes em fazer essa distinção) termos direito a um transporte público!
      Aparentemente sou só eu que vejo assim, mas eu considero isso como algo determinado, algo que já nem é preciso perguntar se há - faz parte da nossa vida. E, por muito que me custe, não podemos fazer comparações com os países subdesenvolvidos. Temos de pensar, sim, no que podemos fazer para que esses países fiquem ao nível dos países desenvolvidos, e não o contrário. O facto de reivindicarmos o nosso direito aos transportes públicos só mostra como somos um povo que está a tentar evoluir.
      Eu nasci em Portugal, e é verdade que estou habituada a um certo nível de vida. Mas não achas que, numa sociedade como a nossa em que a tendência é caminhar cada vez mais para o transporte particular (e estamos em crise, o que seria se não estivéssemos!), usarmos os transportes públicos já seria uma evolução?
      Pela maneira como argumentaste, até me deu a entender que defendias a pobreza e o subdesenvolvimento!
      Muito sinceramente, não me parece que andar de transporte público (em situações em que não se possa utilizar a dita cuja bicicleta ou até mesmo andar a pé, claro) seja um luxo, muito menos para quem vive longe (como tu própria referiste). Se o pudermos evitar, ótimo!, mas acho que há limites para tudo...

      Madalena

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